sexta-feira, 29 de julho de 2016

Nada causa maior devastação do que a dúvida.  Dói, corrói, magoa, rasga, causa vómitos e tonturas.  É pior do que a incerteza, do que a suspeita, do que a descrença. 
A dúvida é uma certeza.  É um ardor que vai crescendo, que se instala.  E adopta a forma de uma sombra que se insinua sem parar.  Sem dar tréguas.  Sem dar espaço a outro qualquer sentimento que não seja a certeza.  Da dúvida...

Estávamos ambos na fila do supermercado.  Á minha frente, segurando um saco com fruta da época, ele aguardava pacientemente pela sua vez.  Olhei-lhe para as mãos, cobertas de rugas. A pele, queimada pelo sol e pelo tempo, parecia feita de papel pardo...
No dedo anelar trazia duas alianças, testemunho de um casamento orgulhosamente longo.  No mindinho, mesmo ao lado, estavam outras duas, iguais no formato e no significado, mas mais pequenas.  Percebi que aquelas alianças teriam pertencido a um outro dedo, num outro corpo mais pequeno, e que um dia, de tanto andarem de mão dada, ficaram ali, no dedo mindinho da sua mão esquerda.  Essa ideia fez-me sorrir carinhosamente.  Olhei para a minha mão nua, e senti inveja da sua historia...
Enquanto esperávamos, passou a mão pela face, como se fosse uma caricia - e eu soube que era ela a tocar-lhe quando me pareceu vê-lo beijar a sua própria mão.
Acredito que em tempos, no lugar do saco de fruta, aquelas mão terão segurado o mundo, certamente...

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Tenho saudades de mim pequena.  Quando ainda todos os  colos me esperavam.  Quando podia cantar e rir só porque sim, e apenas sentia as lagrimas quando caia ou tropeçava. 
Sinto saudades dos dias em que ainda não sabia que o tempo e a distância tinham peso e medida. 
Tenho saudades de ter tudo a horas, a roupa, a sopa, os abraços...
Tenho saudades de mim com tantas letras e sentimentos novos para aprender.  De todos os dias serem uma estreia, sem restos de ontem por fazer.  Quando o hoje durava o que eu quisesse e o amanhã era um lugar longínquo.  Inexistente, quase...
Tenho saudades de mim, num tempo em que não tinha ainda um ontem que me deixasse saudades de mim, pequena...  

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Chegaste tarde, entre o assustado e o desiludido.  De repente, sem que nada o fizesse prever, a vida trocou-te a volta e o chão deixou de estar debaixo dos teus pés.  O teu caminho, tão claro e definido até ontem, está hoje na penumbra.  Naquele espaço que existe entre a luz e a sombra.  Quase que o vejo coberto de folhas secas e de detritos, e tu, a medo, a colocares um pé atras do outro, com receio de caíres num buraco sem saída.  Onde está o meu ídolo de sempre?  O farol que me mostra o percurso seguro, que me afasta das rochas e me mantem a salvo dos embates da vida?  Onde está o meu amigo e confidente?  Quase não o encontro, nesse corpo familiar que conheço.  Não tenhas medo, apetece-me dizer-te.  Eu trato de tudo, eu dou a volta, eu cuido de ti.  Não foi isso que fiz sempre?  Eu não conheço as perguntas, era tão bom se as soubesse de cor.  Eu só sei a resposta que me dou todos os dias.  Estarei aqui, sempre, enquanto tu o quiseres.  Enquanto for preciso.  Enquanto fizer sentido.  Confia, se o fizermos juntos, o caminho fica mais fácil.  E a penumbra, sempre que seguro na tua mão, é atravessada por uma luz que me orienta e me serve de guia.  Nada estará perdido, se não desistires...

quarta-feira, 2 de março de 2016

Para onde vão as nossas memorias quando nos esquecemos delas?  Quando deixam de estar arrumadas lá dentro do pensamento e ficam, perdida e soltas, num limbo de onde não as conseguimos resgatar?  
Que acontece aos dias da infância?  Aos amigos da escola?  Ao primeiro amor? 
Como identificamos uma cicatriz se não nos lembramos de como foi feita?  Se doeu na queda ou se foi apenas um arranhão?
Para onde vão os sons que nos levam de volta ao ontem, de cada vez que os ouvimos?  E todo o resto?  Para onde vai?

domingo, 24 de janeiro de 2016

A parte ingrata de envelhecer não são as rugas ou os cabeloa brancos.   Não é a flacidez ou as manchas na pele.  Não é a memória a pregar-nos partidas nem a vista a ir perdendo os detalhes que ontem se viam tão nítidos.  
A parte ingrata de envelhecer é a perda que vamos sentindo em cada dia que passa.   Dos amigos e familiares que nos deixam.  Dos lugares e dos objectos que marcaram o nosso percurso e que ficaram lá atrás. E dos nossos idolos, os que cresceram connosco, que coloriram o nosso tempo e nos habituaram a estar sempre lá e.que,  um destes dias,  desistiram de envelhecer.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Há pessoas que são ilhas.  Que vivem dentro de si próprias, sem ligação com outra coisa que nao seja o seu interior.  Rodeadas de água por todos os lados, de pouco lhes serve esse contacto.  Nao saem de si. 
Ha pessoas que são continentes.  Carregam em si a diversidade de ideias, de línguas e de crenças que abre a porta à tolerância e à partilha. 
Há pessoas que são mar.  Abraçam as outras generosamente, mas com desapego. como acontece às ondas do mar numa praia.
Ha pessoas que são o universo.  Nelas cabem todas as outras.  Têm um pouco de ilha, uma parte de continente, uns pedaços de mar.  Essas são as maus sábias, as mais felizes.  Essas são o farol que ilumina o caminho das restantes.  Um dia, quando eu crescer, vou querer ser assim...